domingo, 3 de julho de 2011

Nas entranhas da Capital.

-Segura no meu braço ! – e foram essas as palavras que em tom de sussuro meu pai pronunciou enquanto íamos em direção à Estação Rodoviária de Porto Alegre.
         Aquele céu acinzentado de tarde fria porto alegrense de nada ajudava para tornar aquele cenário que me rodeava,no mínimo,menos deprimente.Os prédios pareciam ter parado no tempo,como se estivéssemos presos aos anos 70.O mofo e o limo brotavam em todos os cantos,desde a calçada às lajotas que cobriam as paredes dos prédios.Os postes de luz com fios caídos,e um cheiro terrível exalava das sarjetas.Era uma mistura de dióxido de carbono e carne putrefata aquele odor.Pus-me a observar as pessoas que ali se encontravam,naquela rua de sonhos quebrados.Os olhares dispersos de catadores de lixo me amedrontavam,no modo como  olhavam cada centímetro do meu corpo,como se me analisassem,me colocassem um preço de mercado,um valor monetário.Continuei à observar.Eles falavam rápido,de modo estranho,e o cheiro de bebida barata era quase insuportável.Mais adiante vi uma senhora,mais de trinta anos não devia ter,provavelmente de origem indígena.Duas crianças,uma de colo e outra de cerca de 4 anos.Roupas sujas,cabeças baixas,nenhuma palavra pronunciada em todo o tempo que observei aquela família.Seguindo meu caminho,avistei um bordel com portas abertas.Meretrizes fumando nas escadarias,enquanto duas outras se encontravam do outro lado da rua,encostadas em uma parede,com roupas vulgares e baratas,oferecendo os seus serviços ao primeiro vivente que por ali passou.
Você já viu uma pessoa sem alma?Cuja a qual os olhos não demonstram absolutamente nada além de íris e pupila opacas?Eu vi.Nessa rua de desesperança.Ali vi como o ser humano pode ser tratado menos que um produto de consumo.Vi como a desilusão domina tanto a alma que te destrói,lentamente.Vi como a vida no submundo urbano é trágica e sem amor.Aquele cenário decadente me atingiu de tal maneira que não pude deixar de pôr uma expressão séria e desolada no rosto.Crianças miseráveis,homens dependendo do lixo para sobreviverem e dormindo nas calçadas,mulheres vendendo o próprio corpo em troca de migalhas.Olhe,veja bem aonde que a sociedade chegou,em que ponto de desrespeito ao ser humano estamos.
Baixei a cabeça e continuei andando,firmemente abraçada em meu pai.Chegando quase na esquina de fronte à estação,à minha esquerda encontrava-se o Hotel Conceição II,número mil seiscentos e cinqüenta e alguma coisa,com a fachada desbotada e lajotas azuis recobrindo todo o prédio.Ali parei e olhei para trás,vi aquela rua como um todo,e notei que uma atmosfera densa de ódio e tristeza tomava conta daquele local.Conforme fui indo para atravessar a avenida e entrar na estação,os rostos,as expressões,as pessoas,mudavam.Sorrisos,alegria,satisfação.Era como se eu recém tivesse saído de um universo paralelo.Havia mudado tudo.Aquela rua ficou para trás,e,provavelmente,por lá eu não passe tão cedo.
Depois disso,apenas uma dúvida me resta : a sociedade não deu uma chance aos moradores daquela rua,ou eles não se permitiram tal chance?

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